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29 de set de 2007

Arteterapia : Domínio da Forma sobre o Conteúdo

A arte traz alegria, magia, encantamento, saúde, bem estar, inquietação produtiva, aquieta demônios, embala sonhos, adormece tentações, acorda esperanças. É o entorpecente disponibilizado pela cultura sem o ônus imposto pelas drogas.

Possibilita organizar experiências, plasmar, concretizar intenções, imaginação, reproduz as estruturas da psique humana, levando-as a transformação e ampliação de sua plasticidade.
Para Freud, as forças que impulsionam a arte são as mesmas que impulsionam os conflitos condutores de neurose, pois esta constitui um domínio intermediário entre a realidade que nos nega a realização plena de desejos e o mundo do imaginário e da fantasia que sob comando do princípio do prazer busca satisfação absoluta e incondicional.

A experiência estética se concretiza entre a realidade que frustra e os desejos que buscam prazer pleno e são experimentados no sonho na fantasia na imaginação, região em que os impulsos de onipotência do homem primevo, primal, se acham em plena ebulição e vigor.

Pela arte se chega as sombras, as paixões, ao ser criativo, a própria vida psíquica disfarçados pela expressão onírica, pela fantasia, que é o lugar ocupado pelo inconsciente, e é nesse espaço de desvio dos impulsos que a experiência estética acontece, e nela é que surge a civilização, e portanto chega-se ao inconsciente pela arte e por esta, este se manifesta, onde a sublimação se impõe criando cultura fazendo história.

A Arteterapia estabelece um enquadre de tempo, espaço centrado na experiência artística, onde a escuta sensível de si e do outro se dá, via produção estética. Esses produtos impõe-se com a anuência de seu criador, numa interlocução mundo interno, mundo externo, consolidando um individuar-se subjetivar-se.

Buscar nos próprios instrumentos e ferramentas criadas pelo homem o apaziguamento para sua solidão, desamparo fundante, dando sentido ao seu desespero na busca da esperança, acordando e adormecendo divindades e demônios; eis o que persegue a experiência arteterapeutica.

Arte e homem surgem juntos concomitantes e independentes. Historicamente o homem fez arte para apaziguar-se com os deuses, dialogar com seus mitos, se colocar no lugar destes identificando-se, desindentificando-se, solucionando os desafios impostos pelo cotidiano da existência e sobrevivência, humanizando seu entorno, e humanizando-se; esse é o contexto contemplado pela Arteterapia.

Lucivone Carpintéro Costa Silva Neves
(Conselho Fiscal da Asbart)

5 comentários:

Anônimo disse...

É com alegria que podemos encontrar nesse blog, material dessa nova área do conhecimento.

vamos divulgar...

Angélica disse...

excelente Blog!
convidamos incluir na lista das Associacoes de Arteterapia no Brasil o linck da AATERGS: www.aatergs.com.br
Abracos
Angélica Shigihara
Presidente da AATERGS

Angélica disse...

que bons meios de comunicacao!
convidamos a incluir o linck da Associação de Arteterapia de Rio Grande do Sul - AATERGS www.aatergs.com.br

Abraco!

Anna Rosa disse...

Estou entusiasmada com a movimentação da nova diretoria da ASBART e parabenizo a todos. O Blog está muito bom! Também quero colaborar aqui e divulgando a associação nos eventos e instituições que freqüento.
Vamos participar arteterapeutas baianos!!!
Um abraço e muita paz!
Anna Rosa
(Arteterapeuta junguiana)

Elcely disse...

Fiz especialização em arteterapia e gostaria de receber informações sobre como me filiar a esta associção. Moro em Salvador. Aguardo contato pelo email ecintra2001@yahoo.com.br. Obrigada
Elcely

O que é Arteterapia

A Arte “em” e “como” terapia

O uso da arte como recurso expressivo remonta aos tempos primordiais, quando os hieróglifos, os rituais e as mímicas representavam formas de comunicação do homem com o mundo interno e externo. A Arteterapia, prática que propõe a utilização de recursos artísticos como ferramentas de um processo terapêutico, surgiu de forma sistematizada em 1941 nos EUA. Apresenta-se como um novo modelo investigativo da psique humana que vem crescendo e ganhando espaço na área de saúde e desenvolvimento humano. A partir do estímulo ao potencial criativo inerente a todo indivíduo, e do resgate da “criança adormecida” e do lúdico em nossas vidas, surgem novas formas de expressão dos questionamentos íntimos, das angústias, dores e medos.
Partilhando da visão poética de Boechat (apud URRUTIGARAY, 2003), um dos propósitos da Arteterapia é a libertação das mãos, criativas e criadoras, aprisionadas no ocidente em função de uma cultura cerebral, industrial e tecnológica. Qual a última vez que você desenhou, colou, pintou ou brincou com barro? A Arteterapia se predispõe a resgatar a liberdade criativa das mãos e recuperar atividades esquecidas ao longo da nossa formação.
Através do desenho, pintura, colagem, modelagem, poesia, contos, dança, teatro etc, e da reflexão em torno do que é produzido, os conflitos internos passam a ganhar forma, sendo configurados, confrontados e integrados, agora de forma consciente. Como bem nos lembrou Toquinho numa de suas canções (“Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel, num instante imagino...”), o contato com tintas, cores, barro, música, dentre outros materiais de trabalho, desperta no cliente estímulos sensoriais que favorecem o aparecimento de imagens carregadas de significados subjetivos. Alguns desses estímulos nos remetem a lembranças e memórias afetivas, nos fazendo entrar em contato com a nossa história e com nossos sentimentos mais profundos. Essas imagens, emoções e conteúdos emergentes são então discutidos e analisados, possibilitando uma melhor elaboração por parte do indivíduo. A materialização de imagens simbólicas permite o confronto e a conseqüente atribuição de significado às informações oriundas de níveis mais profundos e desconhecidos da psique. Transformando materiais, possibilita-se uma transformação no nível psíquico. Criando formas e corporificando símbolos, o indivíduo se recria, reconstruindo a sua relação consigo mesmo e com o mundo.
Você pode estar se dizendo: “Mas eu não sei nem pegar num pincel e desenho da mesma forma desde os meus 10 anos!!!”. Nenhum problema quanto a isso! Habilidades técnicas nos são bem menos preciosas que a predisposição a entregar-se na jornada do desvelar a si mesmo. Fundamental para nós é a expressão do subjetivo, o diálogo interno e a desmistificação de conteúdos e símbolos inconscientes que tendem a nos assustar ou paralisar. A arte aqui é entendida como meio de expressão e não cabe abordar questões de ordem acadêmica ou plástica. O valor simbólico da produção artística, na visão da Arteterapia, precede o seu valor estético.
Esse novo modelo terapêutico vem encontrando receptividade e espaço em diversas áreas de atuação: hospitalar, escolar, clínica, organizacional, comunitária, ONG, CAPS, dentre outras. Apesar de essa prática ter se expandido inicialmente na área de saúde mental, a sua utilização não se restringe a um público específico. Todos, não importa a idade, podem se favorecer com o despertar de potencialidades, o acesso às imagens do inconsciente e a possibilidade de ressignificar as experiências vividas, benefícios básicos da prática da Arteterapia. Trata-se de um convite ao autoconhecimento através de um caminho lúdico, criativo e prazeroso. Além disso, muitas vezes, torna-se mais fácil pintar uma angústia ou um trauma que falar sobre eles...

“Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.”
(Pablo Neruda)
Sinta-se convidado, enquanto indivíduo em ação, a “pescar” sua “luz caída” através desse universo de cores, símbolos e descobertas, permitindo que a claridade revelada pelas suas próprias mãos possa trazer um sentido ainda maior à sua história de vida.

Carla Maciel é psicóloga (UFBA), psicoterapeuta junguiana (IJBA)) e especialista em Arteterapia pela Universidade Denis Diderot Paris VII – França. Atualmente é professora, supervisora e coordenadora da Pós-Graduação em Arteterapia Junguiana do Instituto Junguiano da Bahia.