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29 de set de 2007

Artigos

Ciranda, Roda da Vida*
Larissa Martins Seixas**

RESUMO
Pretende-se investigar, neste artigo, as questões relativas a auto-expressão através da criação coletiva de uma performance a partir de uma roda (ciranda) e de que forma essa vivência poderá ser utilizada como recurso terapêutico em sessões de arteterapia.
Compreende-se que por meio do movimento circular cada integrante da roda é levado a conectar com conteúdos subjetivos e arquetípicos facilitando a interiorização e criação de livre movimentação culminando na elaboração de uma performance. O grupo, em questão, é estimulado por música específica escolhida pelo facilitador, o arteterapêuta.
Após dinâmica todo o grupo fará sua auto-análise facilitada pela presença do arteterapêuta. Essa vivência integrou o projeto “Ciranda, Roda da Vida” no ano de 2003. Este foi um projeto voltado para a expressão plástica onde variadas técnicas expressivas foram exploradas como a fotografia, pintura, criação de uma instalação, performance e elaboração musical. A partir deste projeto, onde foi pesquisado o movimento de uma ciranda, ficou claro como o dar as mãos e girar numa roda pode impulsionar a percepção de que todo o indivíduo está inserido na “roda da vida” equilibrando energias neste movimento contínuo em busca de uma maior integração e vivência do ser. Uma mandala de solo foi a imagem que finalizou a performance. Criada pelas integrantes do grupo surgiu como símbolo da totalidade.

*Artigo completo na Revista Científica de Arteterapia Cores da Vida. Disponível em: http://www.brasilcentralArteterapia.org
** Artista Plástica (UFBA) e Arteterapêuta Junguiana (IJBA / FBDC – Fundação Bahiana para o Desenvolvimento da Ciência)



MANDALAS TERAPÊUTICAS
Celeste Carneiro*

As mandalas sempre exerceram um grande fascínio sobre mim. Era intrigante observar suas formas, as figuras colocadas simétricamente, a variedade de cores e de círculos.As mandalas tibetanas e indianas eram ricas de símbolos que eu queria apreender.Em 1975, no Museu de Arte de São Paulo, aconteceu uma exposição em homenagem ao centenário de Carl Gustav Jung, organizada por Nise da Silveira, a psiquiatra que criou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Eram mandalas pintadas por pacientes portadores de deficiência mental.Olhando aquelas pinturas pude perceber o valor incomparável que esse tipo de trabalho exerce sobre o equilíbrio do ser humano. Os pacientes da Dra. Nise da Silveira, instintivamente, pegavam os pincéis ou os lápis coloridos e iam fazendo círculos, colocando imagens dentro deles. Alguns faziam o centro do círculo, outros não se importavam com o centro...Quando comecei a dar aulas particulares, intensifiquei o estudo sobre as mandalas, pedindo, oportunamente, que alguns alunos a pintassem.Um dia um aluno chegou com a fisionomia um tanto transtornada, trazendo algum problema íntimo que eu desconhecia. Dizia não estar em condições de prosseguir com o exercício pois “não estava com cabeça para nada”!Pedi então que desenhasse e pintasse uma mandala do jeito que quisesse.Na semana seguinte ele chegou radiante. Disse que depois de haver pintado a mandala na aula anterior sentiu-se outra pessoa: mais calmo e mais confiante; percebeu que seus problemas não eram tão intransponíveis assim, e que o desenho lhe ajudou na solução daquilo que vinha lhe angustiando.Repeti a experiência com outros alunos e o resultado era sempre semelhante.Alguns nem queriam criar suas mandalas. Então eu pedia que escolhesse entre vários modelos de mandalas disponíveis, e pintasse simplesmente, escolhendo as cores intuitivamente, sem racionalizar muito. O efeito era o mesmo.Na Escola Estadual Jesus Cristo, onde lecionava, em Salvador-BA, pedia também aos alunos para que criassem e pintassem mandalas. Era bonito ver a classe cheia de alunos, em torno de 50, desenhando e pintando em silêncio, aquietados pela mágica influência de um desenho milenar!...O estudo sobre a simbologia das cores, em obras de diversos autores, me fez perceber, através das pinturas dos alunos, os que se encontravam com dificuldades maiores no campo emocional. A princípio os encaminhava para terapias especializadas e mais tarde, quando comecei a fazer o atendimento individual, passei a orientá-los no processo de autoconhecimento.Estudando sobre a mandala, especificamente, encontrei recursos para melhor ajudar as pessoas, compreender a línguagem dos símbolos, da disposição das figuras no papel e a simbologia das cores e suas influências.Percebi também que para beneficiar alguém com essa prática não é imprescindível uma “interpretação” da mandala. O simples fato da pessoa entrar em contato com essa imagem arquetípica, milenar, já traz benefícios.Para quem está em crescimento espiritual, buscando o auto-conhecimento e autoburilamento, é uma ferramenta de muita utilidade.
SIGNIFICADO
Mandala, palavra sânscrita, significa círculo e é associada a instrumento que facilita a meditação e o autoconhecimento, a ritos mágicos, assim como é usada, na arquitetura sagrada, como planta de templos, tendo relação também com o mundo exterior. Executada desde os primórdios da civilização, foi na Índia e no Tibete que encontrou maior utilização consciente, sendo difundida por todo o mundo, sensibilizando aqueles que estudam a alma humana e a busca pelo divino.Carl G. Jung estudou-a em profundidade e junto com outros cientistas aplicou essa técnica de desenho para tratar pessoas e estimular o processo de crescimento do ser em busca da chamada individuação.Nela estão contidos os símbolos sagrados, como a circunferência, o círculo, o quadrado e o triângulo. Estes símbolos procuram fazer a integração do céu com a terra, do masculino com o feminino, do que está em cima com o que está embaixo, da alma com a matéria, do movimento com a estagnação, do positivo com o negativo, buscando o equilíbrio, o caminho do meio, a consciência da totalidade.A mandala mostra a alma humana com todos os seus enigmas, suas buscas, conflitos, aspirações.Ao contemplarmos uma mandala estaremos entrando em contato com nosso íntimo, com a energia espiritual sagrada de todas as épocas e de todos os lugares, havendo uma unificação com o cosmo e com o divino.

* Celeste Carneiro é terapeuta junguiana e transpessoal, arteterapeuta e professora em cursos de pós-graduação. Possui livros e artigos publicados.
Contatos: Site:
http://www.artezen.org/ .
E-mail:
cel5@terra.com.br
©2004 - Artezen.org - Criatividade e Cérebro - Todos os Diretos Reservados



O ARTETERAPEUTA
Celeste Carneiro*

De acordo com a American Art Therapy Association arteterapeuta é um profissional treinado em arte e em terapia que tenha uma formação em arteterapia.
No livro A arte cura? Organizado por Margarida Carvalho, vem assim especificado:
Também é importante ressaltar:
1. a necessidade de os arte-terapeutas e terapeutas “expressivos” serem formados nas áreas pertinentes ao seus campos de trabalho, ou seja, artes, teorias e técnicas de psicoterapia e praticarem seus trabalhos com critério, ética e versatilidade;
2. terapeutas e educadores terem cuidado em manter em mente o objetivo e extensão do campo de seus trabalhos, a configuração específica de suas áreas de atuação (psicoterapia e educação), sabendo o quanto o campo de estudo e aplicação da psicologia e da pedagogia se interpenetram;
3. os profissionais dessas áreas podem e devem construir uma prática psicoterapêutica ou educacional considerando a possível complemen-taridade entre elas;
4. precisa-se pensar, tanto em educação como em saúde, na necessidade de atuação de vários profissionais, dentro de uma concepção multidisciplinar.
É condição sine qua non que a arte esteja no centro do trabalho para este poder ser considerado como arteterapia. (1995, p. 40)
Considerando que a psicoterapia é uma atividade restrita a psicólogos e médicos, e, mais recentemente, a filósofos clínicos, o profissional com outras formações que lhe dão embasamento para melhorar a vida das pessoas são considerados terapeutas.
Roberto Crema, vice-reitor da UNIPAZ e responsável pelo Colégio Internacional dos Terapeutas, esclarece:
A partir de uma visão de ecologia profunda, e de uma definição de saúde como um estado de bem-estar psicossomático, social, ambiental e cósmico, postulada pela Organização Mundial de Saúde, três categorias de terapeutas são reconhecidas: a clínica, a social e a ambiental. A primeira é reservada aos profissionais clínicos habilitados, como médicos, psiquiatras e psicólogos; a segunda, aos profissionais que cuidam do social, como educadores, empresários, engenheiros, arquitetos, artistas, políticos, cientistas, sacerdotes...; a terceira diz respeito aos cuidadores do meio-ambiente, como biólogos, ecólogos, etólogos, engenheiros florestais, entre outros. A tarefa de ser agente de saúde, portanto, é estendida a todo ser humano, que se importa com o bem-estar, de si, de todos e de tudo, abrindo-se à responsabilidade de cuidar. (2002, p.13)
O arteterapeuta, portanto, utiliza recursos artísticos como: artes plásticas, poesia, dança, música, teatro, modelagem, ou outras formas de expressão, para proporcionar o auto-conhecimento e a melhora do estado emocional da pessoa que o busca como terapeuta.
Ele pode focar seu atendimento nas mais diversas abordagens terapêuticas ou correntes psicológicas.
A arteterapia vem sendo usada em clínicas, hospitais, escolas, empresas, como mais um recurso de crescimento interior e bem-estar das pessoas.
Através dos meios que mais tem afinidade, percebe a arte como um processo de comunicação não-verbal, onde tem menos importância o resultado e a estética do trabalho.
A importância maior está naquilo que a arte revela do inconsciente e o seu efeito no consciente, melhorando o seu viver e o seu sentir.
Para isso, se faz necessário um conhecimento prévio das técnicas a serem usadas, dos materiais expressivos, e o treinamento na escuta e percepção do outro, com o acolhimento e a compreensão próprios de quem cuida.
O arteterapeuta junguiano está sempre trabalhando com as polaridades, a luz e as sombras, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, o ego e o self.
Estar em constante processo de auto-crescimento é fundamental, pois é conhecido que só conseguimos levar as pessoas até onde conseguimos chegar.

Bibliografia:
Crema, Roberto. Antigos e Novos Terapeutas. Petrópolis, Editora Vozes, 2002.Carvalho, Maria Margarida M. J. de. A arte cura? Campinas (SP), Editora Psy II, 1995.

* Celeste Carneiro é terapeuta junguiana e transpessoal, arteterapeuta e professora em cursos de pós-graduação. Possui livros e artigos publicados.
Contatos: Site:
http://www.artezen.org/ .
E-mail:
cel5@terra.com.br
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O que é Arteterapia

A Arte “em” e “como” terapia

O uso da arte como recurso expressivo remonta aos tempos primordiais, quando os hieróglifos, os rituais e as mímicas representavam formas de comunicação do homem com o mundo interno e externo. A Arteterapia, prática que propõe a utilização de recursos artísticos como ferramentas de um processo terapêutico, surgiu de forma sistematizada em 1941 nos EUA. Apresenta-se como um novo modelo investigativo da psique humana que vem crescendo e ganhando espaço na área de saúde e desenvolvimento humano. A partir do estímulo ao potencial criativo inerente a todo indivíduo, e do resgate da “criança adormecida” e do lúdico em nossas vidas, surgem novas formas de expressão dos questionamentos íntimos, das angústias, dores e medos.
Partilhando da visão poética de Boechat (apud URRUTIGARAY, 2003), um dos propósitos da Arteterapia é a libertação das mãos, criativas e criadoras, aprisionadas no ocidente em função de uma cultura cerebral, industrial e tecnológica. Qual a última vez que você desenhou, colou, pintou ou brincou com barro? A Arteterapia se predispõe a resgatar a liberdade criativa das mãos e recuperar atividades esquecidas ao longo da nossa formação.
Através do desenho, pintura, colagem, modelagem, poesia, contos, dança, teatro etc, e da reflexão em torno do que é produzido, os conflitos internos passam a ganhar forma, sendo configurados, confrontados e integrados, agora de forma consciente. Como bem nos lembrou Toquinho numa de suas canções (“Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel, num instante imagino...”), o contato com tintas, cores, barro, música, dentre outros materiais de trabalho, desperta no cliente estímulos sensoriais que favorecem o aparecimento de imagens carregadas de significados subjetivos. Alguns desses estímulos nos remetem a lembranças e memórias afetivas, nos fazendo entrar em contato com a nossa história e com nossos sentimentos mais profundos. Essas imagens, emoções e conteúdos emergentes são então discutidos e analisados, possibilitando uma melhor elaboração por parte do indivíduo. A materialização de imagens simbólicas permite o confronto e a conseqüente atribuição de significado às informações oriundas de níveis mais profundos e desconhecidos da psique. Transformando materiais, possibilita-se uma transformação no nível psíquico. Criando formas e corporificando símbolos, o indivíduo se recria, reconstruindo a sua relação consigo mesmo e com o mundo.
Você pode estar se dizendo: “Mas eu não sei nem pegar num pincel e desenho da mesma forma desde os meus 10 anos!!!”. Nenhum problema quanto a isso! Habilidades técnicas nos são bem menos preciosas que a predisposição a entregar-se na jornada do desvelar a si mesmo. Fundamental para nós é a expressão do subjetivo, o diálogo interno e a desmistificação de conteúdos e símbolos inconscientes que tendem a nos assustar ou paralisar. A arte aqui é entendida como meio de expressão e não cabe abordar questões de ordem acadêmica ou plástica. O valor simbólico da produção artística, na visão da Arteterapia, precede o seu valor estético.
Esse novo modelo terapêutico vem encontrando receptividade e espaço em diversas áreas de atuação: hospitalar, escolar, clínica, organizacional, comunitária, ONG, CAPS, dentre outras. Apesar de essa prática ter se expandido inicialmente na área de saúde mental, a sua utilização não se restringe a um público específico. Todos, não importa a idade, podem se favorecer com o despertar de potencialidades, o acesso às imagens do inconsciente e a possibilidade de ressignificar as experiências vividas, benefícios básicos da prática da Arteterapia. Trata-se de um convite ao autoconhecimento através de um caminho lúdico, criativo e prazeroso. Além disso, muitas vezes, torna-se mais fácil pintar uma angústia ou um trauma que falar sobre eles...

“Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.”
(Pablo Neruda)
Sinta-se convidado, enquanto indivíduo em ação, a “pescar” sua “luz caída” através desse universo de cores, símbolos e descobertas, permitindo que a claridade revelada pelas suas próprias mãos possa trazer um sentido ainda maior à sua história de vida.

Carla Maciel é psicóloga (UFBA), psicoterapeuta junguiana (IJBA)) e especialista em Arteterapia pela Universidade Denis Diderot Paris VII – França. Atualmente é professora, supervisora e coordenadora da Pós-Graduação em Arteterapia Junguiana do Instituto Junguiano da Bahia.